Arnaldo Jordy
As
manifestações que acontecem há pouco mais de dez dias em todo o país revelam a
face de um Brasil que estava adormecido, como vaticina a principal palavra
de ordem do movimento: “O Gigante Acordou”. E acordou com disposição para
recuperar o tempo perdido.
Ao longo da
história, os estudantes sempre desempenharam papel fundamental na organização
das massas que foram às ruas pedir liberdade, democracia e condenar a
corrupção. Foi assim em 1964, 1968, Diretas Já e o impeachment
de Fernando Collor, em 1992, episódio que levou a juventude a pintar a
cara, para ser um fator decisivo na queda do ex-presidente,
hoje senador da República e aliado do governo. Isso há 21 anos,
quando boa parte dessa geração que está nas ruas não
havia sequer nascido.
O poeta carioca
Carlito Azevedo, ao ver a multidão nas ruas do Rio de Janeiro, um dos
principais focos dos protestos, disse com propriedade: “quem não estiver
confuso neste momento, não está bem informado”. De fato, muita gente foi pega
de surpresa. As elites ficaram perdidas, batendo cabeça. Alguns dizendo
bobagens do tipo: “seria um movimento de direita”. Aqueles que se achavam
“donos” dos movimentos sociais, inconformados com a perda de controle. Nas
redes sociais, os jovens construíram suas assembleias alheias às estruturas
tradicionais da política, chamando para uma nova forma de fazê-la e
redemocratizando a democracia.
A presidente
Dilma anunciou que “quer dialogar com os líderes do movimento”. Não entendeu
nada! Não existem “os líderes”. Não existe um centro de comando, nem
hierarquia. O movimento é horizontal. O comando vem das bordas.
Nos cartazes
que empunham nos protestos e na internet, o Brasil se deu conta que o
movimento “não era apenas por 20 centavos”, mas contra a desigualdade econômica
e social, a ganância, a corrupção quase generalizada, o privilégio de
empresas e os investimentos obscuros em arenas milionárias para a Copa de
2014. Aqui trata-se de uma farra inexplicável. Em 2010, o presidente
Lula anunciava que não haveria recursos públicos nos estádios, depois o governo
falava em 2,5 bilhões de investimentos e hoje já se contabiliza 8,6 bilhões de
gastos do tesouro.
Com essas
palavras de ordem não foi difícil mobilizar consciências cada vez
maiores, de muitas cores, gêneros e opiniões políticas diferentes, que
englobam pessoas de todos os estratos da complexa sociedade brasileira. E
reunir tanta gente assim traz efeitos colaterais não desejados, que
são a violência e o vandalismo patrocinados por menos de 1% dos
manifestantes, gente infiltrada que aposta na baderna, na depredação, no
confronto e no descontrole do movimento.
Nos últimos
dois anos, a juventude esteve à frente das principais manifestações no mundo,
tendo como bandeiras de organização a ordem e a defesa intransigente da
não violência, para pedir democracia e protestar contra a corrupção. Primeiro,
na chamada “Primavera Árabe”, especialmente nos protestos da Praça Tahir, no
Cairo, em 2011. E depois, no movimento “Ocupe Wall Street”, também em 2011, em
que milhares de jovens ocuparam o distrito financeiro de Nova Iorque, em
protesto contra a corrupção e a influência das
empresas financeiras na economia americana.
O
Brasil mostra uma juventude antenada com as causas mundiais, com os
protestos e com a força do povo, em ação direta, sem a interferência do atual sistema representativo.
O Brasil do povo não se sente representado pelo Brasil do poder institucional.
Chegou a hora dos dirigentes do país ouvirem o que disseram as ruas. Não foi um muxoxo nem
um recado suave. Foi um grito forte
e certeiro. A reforma política é urgente e necessária. A população já não
acredita mais nesse sistema que está aí.
As
manifestações são fruto de uma revolta sufocada pela agenda política e
econômica do país e pela corrupção. E as suas lideranças coletivas
conduzem as discussões sem as estúpidas disputas por hegemonias
partidárias.
O que está em xeque é
o sistema político vigente; é a alienação das elites e da maioria dos
governantes; é um Brasil que tem a sétima economia do mundo e
detém o 73º lugar do IDEB, o 85º lugar no IDH, o
quinto com os maiores juros reais e a terceira maior carga
tributária do mundo. É a falta de transparência dos gastos públicos, é o
Brasil da oitava maior sociedade desigual do planeta. É o Brasil
que foi às ruas para dizer basta.
*Arnaldo
Jordy é deputado federal

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